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Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 19h35
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Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 08h57
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Mecha de cabelo de Che é vendida por US$ 119,5 mil
 
da bbc Brasil
Mecha de cabelo de Che Guevara vendida em leilão
Cabelo foi retirado do cadáver de Che por agente da CIA, em 1967
 
Uma mecha de cabelo do líder revolucionário Ernesto Che Guevara foi vendida por US$ 119,5 mil nesta quinta-feira, em um leilão realizado na cidade americana de Dallas.

A mecha de oito centímetros foi retirada do cadáver do revolucionário pelo ex-agente da CIA (a agência de inteligência americana) Gustavo Villoldo, que participou da captura e da execução de Che, em outubro de 1967, na Bolívia.

Além do cabelo, o lote negociado incluía outros objetos relacionados à morte de Che, como fotografias do cadáver e impressões digitais tiradas do revolucionário depois de sua morte, além do mapa do local onde ele foi capturado e de cartas.

As relíquias foram vendidas para o único interessado, Bill Butler, de 61 anos, dono de uma livraria nos arredores de Houston. Butler fez o lance por telefone pagou o preço de reserva, acrescido de um prêmio.

A vice-presidente de mercado da casa de leilões Heritage Auction Galleries, Kelly Norwine, disse à BBC que o comprador pretende deixar o cabelo do revolucionário em exposição em sua livraria.

Protestos

A venda não foi a primeira do tipo feita pela Heritage Auction Galleries. A empresa já vendeu em ocasiões anteriores madeixas de personagens famosos, como Abraham Lincoln, Elvis Presley e Marilyn Monroe.

Desta vez, no entanto, o leilão provocou protestos por parte da viúva e de admiradores de Che.

A empresa promotora reforçou a segurança para o pregão por temor de manifestações.

Segundo Norwine, um grupo de admiradores de Che chegou a criticar a casa de leilões por "cumplicidade com o assassinato do glorioso revolucionário".

"Missão cumprida"

O ex-agente da CIA que era proprietário do lote disse que cortou a mecha de cabelo, coletou impressões digitais e fotografou o cadáver de Che para provar que sua missão havia sido cumprida.

Villoldo disse à BBC que decidiu vender a coleção porque, para seus filhos, que são americanos, ela não tinha significado. "O valor histórico que poderia ter é para mim e para Cuba", afirmou.

O ex-agente da CIA disse que não ficou decepcionado pelo fato de o leilão ter apenas um interessado. "Pelo contário", afirmou, dizendo-se supreso pelo fato de alguém estar disposto a pagar "pelo que representa Guevara", a quem considera um assassino.

Ele afirmou também esperar que o comprador ajude a preservar os objetos. Villoldo disse à BBC que preferiu vender a coleção em vez de doá-la a um museu.

"Nos museus com os quais fiz contato, não achei atraente o tratamento que pretendiam dar à coleção", afirmou o ex-agente da CIA.



Corrupção policial alimenta facção criminosa

PCC censurado

do Conversa Afiada

A repórter policial Fátima Souza escreveu um livro em que retoma os dez anos de história do PCC (Primeiro Comando da Capital). “PCC – A Facção” é um livro-reportagem e foi editado pela editora Record.

Fátima Souza disse em entrevista a Paulo Henrique Amorim nesta sexta-feira, dia 26, que o PCC não acabou e que há um acordo entre a mídia e o governo para não falar sobre a facção (clique aqui para ouvir o áudio).

“Está havendo um acordo em relação ao PCC. Um acordo entre as emissoras de rádio e de TV e o governo, visto que daqui a pouco tem eleições. Gente que foi daquela época que não se combateu o PCC volta a ser candidato”, disse Fátima Souza.

Fátima Souza disse que o PCC é “maquiado”. Segundo ela, quando o PCC realiza algum assalto, por exemplo, a mídia e a polícia evitam falar que se trata de uma ação da facção.

“Ações que hoje são feitas pelo PCC, como assaltos a condomínios, assaltos a bancos e roubo de carga não têm sido divulgados como sendo da sigla PCC. Uma parte da imprensa tem evitado falar da sigla”, disse Fátima Souza.

Segundo Fátima Souza, para combater o PCC é preciso, primeiro, acabar com a corrupção policial. Ela disse que é por meio da corrupção policial que entram os celulares – a maior arma do PCC – nas cadeias.

O livro de Fátima Souza também retoma o caso do “Castelinho”, que foi um episódio em que cerca de 300 policiais cercaram e mataram 12 supostos assaltantes numa estrada do interior, conhecida como Castelinho. A Operação, que ficou conhecida como “Castelinho”, ocorreu durante o governo de Geraldo Alckmin.

Fátima Souza ouviu os presos que sobreviveram à Operação. Ela disse que conta no livro a versão deles sobre a Operação Castelinho. Fátima Souza ouviu dos presos que a policiais se infiltrou no meio do grupo e fingiram ser bandidos para prender os integrantes do grupo.

Os presos disseram para Fátima Souza que a polícia agiu por vingança e que a polícia escolheu aquela quadrilha porque o grupo fez um resgate no mesmo local, em Sorocaba (SP), onde morreu um policial e outro ficou paraplégico. Segundo os presos, a polícia armou um esquema para executar os membros da quadrilha.

Clique aqui para saber mais sobre o livro "PCC – A Facção".

 



Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 19h27
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Boa Notícia: Cai audiência da Globo

Colosso. Não mais impávido

por Alisson Avila - Carta Capital

A Globo sofre uma inédita queda de participação na audiência em 2007

A letra de É Hoje, canção de Didi e Mestrinho eternizada no samba e na música popular brasileira, é sempre lembrada como “aquela que fala da luta do rochedo contra o mar”. E é mais ou menos isso o que acontece, guardadas as devidas proporções, na velha guerra da audiência da tevê brasileira. A Rede Globo trata de manter-se impávido colosso diante dos vagalhões projetados por Record e SBT contra o seu rochedo.

Ambos os canais fizeram (SBT) e fazem (Record) todo o possível para reduzir a histórica superioridade que começou a ser construída pela empresa da família Marinho na tevê aberta do País a partir dos anos da ditadura militar. E parece que tanto esforço e energia – e especialmente dinheiro, tratando-se da Record – começam a gerar sinais de erosão na pétrea estrutura da Globo.

A emissora de Faustão, Xuxa e Ana Maria Braga, mesmo sem ver afetada a folga na liderança, perde participação de mercado. Enquanto isso, a Record cresce, e bem, e o SBT segue caindo, mas faz questão de mostrar que ainda não perdeu a batalha. Arma-se assim o cenário para um acirramento muito maior da disputa a longo prazo.

Tais conclusões são resultado da análise dos dados do Ibope Telereport, interpretados em perspectiva de janeiro de 2005 até agosto de 2007, a partir do filtro mais utilizado pelo mercado de propaganda na hora de definir quanto de dinheiro será investido em cada rede: o chamado share de audiência das emissoras. Trocando em miúdos, trata-se da participação de mercado (leia-se quantidade de espectadores), em pontos porcentuais, que Globo, Record, SBT, Band e demais tevês abertas possuem.

A partir dessa métrica, vê-se que, na Grande São Paulo, a Globo sofreu uma queda de 9,5% no chamado horário nobre (das 6 da tarde à 1 da manhã), quando se compara a média de janeiro a agosto de 2007 ao mesmo período de 2006. Em âmbito nacional, a perda foi de 7%.

Estendida a referência para o dia inteiro (das 6 da manhã à meia-noite), descobre-se que o share caiu 10,5% na Grande São Paulo e 7,3% no total nacional (tabelas na edição impressa).

À medida que desce a curva da Globo, outra curva sobe. A Record, mesmo que a partir de uma base muito menor, que facilitaria um crescimento acelerado, avançou 23% no horário nobre na região metropolitana paulista e 22,5% no total nacional nos oito primeiros meses deste ano, na comparação com 2006. No acumulado do dia, sob a mesma referência do cálculo da Globo, a emissora de Edir Macedo ampliou a participação em 28% em São Paulo e 27% no Brasil de um ano para o outro.

Os dados são praticamente públicos: qualquer agência de publicidade ou veículo de comunicação pode comprar os sistemas de pesquisas do Ibope e selecionar determinados filtros, gerando dados que permitam a comparação. O detalhe é que esses números, segundo as regras do mercado, não podem ser divulgados publicamente, ou seja, devem circular apenas à boca pequena.


Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 19h22
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Dilma e a teoria do beijo na testa

     
Escrito por Luiz Antonio Magalhães   

Antes de falar das chances e atributos da ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República, Dilma Rousseff, em uma ainda longínqua, mas cada vez mais presente campanha eleitoral de 2010, vale a pena a leitura do diálogo abaixo, entre o jornalista Paulo Henrique Amorim e um motorista de táxi de Salvador, que iniciou a conversa:

 

– Cada um vai para o seu canto.

– Vai alguém para o canto de Jacques Wagner?

– Vai, respondeu o Souza, “e alguém agüenta ficar três anos fora do puder? (Puder, com u mesmo.)

– E quem é o puder?, perguntou o jornalista.

– É Jacques Wagner aqui e Lula no Nordeste, respondeu Souza.

– E no Brasil?

– No Sul, não sei como é que é.

– Você entende é da Bahia...

– Sim, e aqui sempre votei em ACM e em Wagner.

– Mas, como assim, em ACM e Wagner?, perguntou Amorim, perplexo.

– ACM arrumou o emprego da minha filha na Ford. Voto nele sempre que for preciso. Mas não na turma dele. Voto NELE!

– E Wagner?

– Porque Wagner é Lula.

– E porque Lula é tão importante assim?

– Porque, “a nível de Nordeste”, só tem pra Lula...

– Ah, é o Bolsa Família...

– Não, eu não tenho nada com o Bolsa Família, não. Eu sou diabético e por causa da Drogaria do Povo, hoje pago 10% do que eu pagava por meus remédios, explicou Souza.

– E quem você acha que vai suceder o Lula?

– Wagner!

– Mas você acha que Wagner entra no Sul?

– No Sul, não sei, mas, ‘a nível de Nordeste’, é só ele.

– E lá no Sul, quem pode ser?

– Bom, meditou o Souza, tem o Aécio e o Serra.

– É, parece que é, confirmou o jornalista.

 

Souza continuou sua análise, “a nível do Sul”:

 

– O Aécio pode ser, mas o Serra, depois de tudo o que ele já disse do Lula, acho muito difícil ele sair candidato.

– Mas, péra aí, Souza, ele pode sair candidato CONTRA o Lula, argumentou Amorim.

– Ah, mas ai não dá. O cara só se elege se o Lula der um beijo na testa...

 

Além de divertido, o diálogo serve como uma fotografia da realidade política do Nordeste brasileiro hoje. A popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na região é espantosa, basta lembrar que na última pesquisa realizada pelo instituto Sensus, em abril, a aprovação dos nordestinos a Lula passou de 80% – exatos 82,9% contra a média nacional de 63,7%. É bastante provável que o presidente se torne uma espécie de mito na região, o que não impede, como fica claro no diálogo, que caciques locais, ainda que adversários do PT e de Lula, consigam sobrevida política em seus estados.

 

Onda feminina e as pedras no caminho

 

O Brasil é realmente muito mais complicado do que parece à primeira vista. Nos últimos dias, jornalistas e analistas políticos têm comentado a suposta disposição da ministra Dilma Rousseff para ser candidata à sucessão de Lula. Alguns se animam com a “tendência internacional” da eleição de mulheres: a lista é longa e tem em Cristina Kirchner (Argentina), Angela Merkel (Alemanha), Michelle Bachelet (Chile) e Hillary Clinton (EUA) alguns exemplos já entronados ou em vias de chegar lá. Outros afirmam que Dilma é a única solução politicamente viável no PT e que o partido de Lula jamais aceitaria ficar de fora ou compor chapa em 2010. Há até os que chegam a afirmar peremptoriamente que Dilma já recebeu o “beijo na testa” de Lula e foi ungida à condição de “plano A” do atual chefe do governo federal.

 

É melhor ir devagar com o andor, o santo é de barro. Quem conhece minimamente o Partido dos Trabalhadores sabe que à exceção da inconteste liderança de Lula, nada por lá é resolvido de forma fácil e tranqüila. É da natureza dos petistas a disputa interna, muitas vezes acirrada e dura. Até mesmo o presidente Lula teve de disputar uma prévia em 2002, por causa da insistência do senador Eduardo Suplicy em levar a sua pré-candidatura adiante... Ademais, como se sabe, o PT só teve um candidato à presidência do Brasil em toda a sua história. Em 1998, Lula dizia que não disputaria, deixou o jogo correr, mas matou politicamente as lideranças que se apresentaram como alternativa na disputa – o atual ministro da Justiça, Tarso Genro, é o exemplo mais notável.

 

Processo complicado

 

A escolha de um nome para a sucessão de Lula, portanto, não será algo tão simples quanto parece. Ademais, o presidente tem reiterado que gostaria de ver a sua base aliada seguir unida para a eleição, a fim de enfrentar a oposição, hoje curiosamente melhor posicionada nas pesquisas de intenção de voto não por méritos próprios, mas justamente pela ausência de um nome que a população perceba vinculado ao presidente. Não, ele não pode ser candidato, mas coloque-se o presidente Lula na pesquisa e o tamanho da oposição será outro.

 

De toda maneira, também não há um “nome natural” a unir os partidos da atual aliança. Ciro Gomes (PSB) é quem mais se aproxima deste perfil, com a vantagem de já ter concorrido à presidência, mas há setores do PT bastante resistentes ao cearense, até pelo seu passado de homem da Arena e do PSDB. Nelson Jobim, se bem sucedido no ministério da Defesa, pode também se tornar uma opção viável, mas sofre ainda mais com a restrição dos petistas mais à esquerda, que o tem como grande amigo de Fernando Henrique Cardoso e o consideram o mais tucano dos peemedebistas.

 

Com este cenário, muitos analistas pensam que Lula pode optar por entrar na disputa com vários cavalos – Ciro, sem dúvida; um peemedebista que pode ser Jobim ou o governador do Rio, Sérgio Cabral; e um petista. Dilma seria, hoje, a favorita, à frente de Tarso Genro por estar mais próxima do chamado núcleo duro do Planalto (o ministro da Justiça nem sequer faz parte da corrente majoritária do PT). A ministra de fato tem alguns bons atributos para a disputa: assumiu a gerência do governo com discrição, foi crescendo como liderança relevante, adquirindo um status maior do que o inicial e deixando para trás a sombra do super-poderoso José Dirceu. Dilma é gaúcha, região onde Lula é pior avaliado no país, tem fama de ser durona, foi guerrilheira, e não há uma única denúncia no campo ético contra ela. Enfim, na mão de um marqueteiro experiente, é um “produto” bem vendável: com um pouco de treino, se comunicará melhor e conseguirá maior empatia com os eleitores.

 

O problema real, porém, não é a viabilidade eleitoral da ministra, mas o cenário político. Em uma disputa com vários cavalos, a população pode achar que Lula não beijou a testa de Dilma, para lembrar a conversa de Paulo Henrique e o taxista. A ministra só vence a eleição se a economia continuar indo bem, é óbvio, e se o povão reconhecer nela a marca do presidente Lula. A grande questão é saber se Lula vai querer mesmo beijar a testa de alguém...

 

 

Luiz Antônio Magalhães é editor de política do DCI e editor-assistente do Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br).

Blog do autor: www.blogentrelinhas.blogspot.com


Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 18h30
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Opinião

Che: Homem e Exemplo (final)

     
Escrito por Pietro Lora Alarcón   

  Ingressamos, nesta fase final das nossas anotações sobre a contribuição de Ernesto CHE Guevara, a alguns aspectos de seu pensamento sobre as formas de luta e as vias para a revolução. Com relação a tais pontos, CHE não somente argumenta sobre as possibilidades cubanas de triunfo e construção do programa socialista, mas também sobre as perspectivas de uma mudança no cenário da América Latina na sua plenitude e, ainda, de uma mutação na correlação de forças internacional contra os Estados que promovem o colonialismo, em tempos de Guerra Fria.

 

A real dimensão do humanismo revolucionário do CHE somente pode ser explicada a partir da ação em favor da libertação dos povos. CHE entendia que os aliados naturais do processo revolucionário não eram necessariamente os governos, nem sequer, como ele mesmo expressou várias vezes, aqueles que se apresentavam como amigos e, no entanto, eram presas fáceis das tentações dos Estados mais poderosos, senão os povos. Assim, a luta popular em outros países não somente da América Latina, mas da África e da Ásia, assim como a resposta solidária que fosse dada desde o interior dos países centrais, seria de fundamental importância para o sucesso da Revolução Cubana e de todo e qualquer processo que empreendesse o caminho ao socialismo.

 

Duas questões importantes devem ser levadas em conta nesta ação libertadora: a primeira, a ação militar propriamente dita, que implica no Che a preparação que obtém com o General Bayo, sua leitura sobre os fundamentos de tática e estratégia de Clausewitz e, obviamente, sua experiência na guerra de guerrilhas; a segunda, a vocação internacionalista, a qual nunca abandonou e que foi o resultado, não somente da compreensão de que a Revolução Cubana somente teria possibilidades de sucesso sobre a base da solidariedade internacional, das contínuas convocações ao conjunto dos povos à luta antiimperialista, senão, essencialmente, da sua vivência, a que o colocou em contato com a realidade desesperada e sem esperanças dos homens e mulheres da América.

 

Como acertadamente lembra Roberto Massari em sua Che Guevara: grandeza y riesgo de la utopia”, a preparação militar do Che começa na Guatemala em 1954, quando se alista nas brigadas juvenis, e prossegue no México sob as ordens do General Bayo. O General, veterano da Guerra Civil Espanhola, tinha a virtude de complementar conhecimentos militares próprios das práticas de um exército regular com os conhecimentos da guerra de todo o povo e das históricas guerras de trincheiras no cenário americano. CHE lembra especialmente dos seus ensinamentos por ocasião da vitória em Las Villas. Quando, após sua morte física, publica-se a obra Táctica y Estratégia de la Revolución Latinoamericana, é possível observar a influência de Bayo aliada às formulações sobre a guerra e a política oriundas de Clausewitz.

 

Tema de obrigatória abordagem é sua percepção sobre a questão moral e seu entrelaçamento com a questão militar. As forças revolucionárias, sustenta, devem crescer moralmente, posto que essa é a base para o cumprimento das tarefas no dia a dia. O agir está ligado à espiritualidade. Essa opinião a levará em conta até o final em solo boliviano. E, a essa questão moral, Che adiciona na prática dois elementos: a tática de guerra de movimentos - por isso, na Bolívia, Che divide seus homens, como ele mesmo coloca no seu Diário, em grupos de vanguarda, centro e retaguarda em permanente mobilidade – e a unidade com os setores do povo – “La guerra de guerrillas no es outra cosa que una expresión de la lucha de masas y no se puede pensar aisladamente de su medio natural, que es el pueblo”.

 

Há que dizer que a ignorância de alguns lhes permite, sem qualquer pudor, qualificar o CHE como terrorista. Com efeito, demonstrando seu desconhecimento sobre o conceito de terrorismo, sobre a natureza real das ações militares – ecoando sobre o que outros perigosamente dizem –, o acusam sem, minimamente, fazer uma leitura prévia do seu pensamento. É de bom alvitre, quando algo se desconhece, dar-se ao trabalho de ler e, se isto não é possível, então, talvez calar a boca seja a melhor opção.

 

Na obra La Guerra de Guerrillas, publicada em 1960, CHE expõe seu pensamento com relação ao terrorismo: “El sabotaje no tiene nada que ver con el terrorismo; el terrorismo y el atentado personal son fases absolutamente distintas. Creemos sinceramente que el terrorismo es un arma negativa, que no produce de ninguna manera los efectos deseados, que puede inducir al pueblo a ponerse en contra de un determinado movimiento revolucionario y que comporta una perdida de vidas entre sus ejecutores muy superior a la ventaja obtenida”.

 

CHE também não é alguém que reconheça apenas um caminho para a transformação social. Novamente, na sua Táctica y Estratégia de la Revolución Latinoamericana, expressa: “(...) Existe, sin embargo, alguna posibilidad de tránsito pacífico (...) pero, en las condiciones actuales de América, cada minuto que pasa se hace más difícil para el empeño pacifista y los últimos acontecimientos vistos en Cuba muestran un ejemplo de cohesión de los gobiernos burgueses con el agresor imperialista, en los aspectos fundamentales del conflicto.  Recuérdese nuestra insistencia: tránsito pacífico no es logro de un poder formal en elecciones o mediante movimientos de opinión pública sin combate directo, sino la instauración del poder socialista, con todos sus atributos, sin el uso de la lucha armada”.

 

Como é possível perceber claramente, CHE não descartava a possibilidade de assumir o poder e iniciar a construção de uma sociedade mais justa atravessando a luta popular sem o poder das armas. Contudo, também é enfático em reconhecer que a agressão imperial contra Cuba e contra as manifestações populares em prol das mudanças democráticas e progressistas impede os caminhos menos dolorosos para o povo, que, indubitavelmente, se vê forçado a implementar recursos e homens para uma defesa diante de um inimigo poderoso.

 

Pois bem, certamente, muitas questões ainda podem ser ditas sobre a vigência do pensamento de CHE. Nosso propósito não poderia ser esgotar sua ação, vida e obras. Focalizamos, por isso, em três segmentos, os elementos que nos parecem hoje mais determinantes e dos quais podemos extrair lições concretas, não para uma reprodução dogmática, mas para um aprendizado dialético: em primeiro lugar, em tempos de integração, o pensamento do CHE implica reconhecer que a unidade decorre não de pressões econômicas nem políticas, mas de gestos concretos que se dirijam a criar um cenário de paz e de segurança para todos. Falar de integração enquanto as tropas do país destroem, agridem, torturam e enquanto Guantánamo se constitui em terra imune à aplicação da legalidade internacional é a postura mais hipócrita que se pode esperar de um Estado.

 

Em segundo lugar, o resgate do ser humano, como mola propulsora do trabalho, da sua dignidade como agente de mudanças democráticas; e, finalmente, a idéia de que a paz é uma bandeira vigorosa, e que a vocação popular não é a guerra, mas que esta pode ser uma necessidade política, quando se é injustamente agredido e é preciso a defesa mais intransigente dos direitos do ser humano.

 

CHE não era um Quixote lutando contra moinhos, mas um ser humano convencido até a alma dos seus sonhos, o que o une a todos os progressistas do mundo, nos quais a dor ou o cansaço não matou a utopia. 

 

É CHE, como diz a canção. (...) depois de tanto tempo e tanta tempestade, seguimos para sempre esse caminho longo, longo, por onde tu vais.....     

 

Pietro Alarcón, advogado, colombiano, é professor da PUC-SP.



Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 18h19
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Trem da Alegria

Senado emprega parentes de servidores não concursados
Funcionários dizem que contratações seguem normas e que não beneficiaram familiares

Claudia Lyra, secretária-geral da Mesa, que entrou antes da necessidade de concurso, tem filhas, irmãs e cunhado que também atuam na Casa

ANDREZA MATAIS
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O Senado abriga em sua burocracia verdadeiros clãs encabeçados por funcionários que entraram na Casa por meio do "trem da alegria" que existia até 1988, ascenderam a postos-chaves e agora empregam mulheres, maridos, filhos, irmãos e agregados com salários que podem chegar a até R$ 10 mil em cargos de confiança -sem a necessidade de concurso público.
Há casos de famílias inteiras acomodadas no Senado, como a da secretária-geral da Mesa, Claudia Lyra, que tem duas filhas, duas irmãs e o cunhado empregados ali. Quando assumiu a presidência do Senado, em 1985, José Fragelli (MS), já morto, espantou-se com o que encontrou. "O Senado é um loteamento familiar", disse ele.
Até 1988, não havia a obrigatoriedade do concurso. Com a Constituição, os funcionários já existentes foram efetivados. Ao assumir a presidência da Casa pela primeira vez, em 1995, José Sarney (PMDB-AP) suspendeu concursos e aumentou o quadro de comissionados. Só houve novos concursos em 1998 e outro em 2000.
Os servidores alegam que as contratações foram feitas dentro das normas, negam que tenham beneficiado parente e que muitos se conheceram no próprio trabalho e se casaram.

Padrinho
O nome Sarney está ligado à maioria dos clãs, sendo o senador o padrinho da indicação da maioria de seus chefes. Sua filha, a hoje senadora Roseana (PMDB-MA), também é funcionária da Casa -foi indicada em 1982, está licenciada desde 1990 e, ao se aposentar, terá direito a R$ 5.000 mensais.
Na lista de agraciados pelo apadrinhamento político estão ainda o ex-secretário-geral do Senado e hoje ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) Raimundo Carreiro, o diretor de recursos humanos, João Carlos Zoghbi, e o diretor-geral do Senado, Agaciel Maia.
A mulher de Agaciel, Sanzia Maia, é coordenadora de estágios. Ele e Claudia Lyra ingressaram no Senado sem prestar concurso e hoje estão nos cargos mais importantes da Casa.
As filhas de Claudia trabalham meio período com salários de cerca de R$ 4.000 brutos. Marina, na Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo. Carla está na liderança do PMDB desde 2003.
A irmã de Claudia, Martha Lyra, é chefe-de-gabinete da Presidência do Senado, com salário superior a R$ 10 mil. O marido de Martha, Carlos Eduardo Bicalho, atua no gabinete do senador Antonio Carlos Magalhães Júnior (DEM-BA). Também foi Sarney quem indicou Martha a essa função.
Márcia, a outra irmã, é lotada na Secretaria Geral da Mesa, subordinada à irmã. A Folha não conseguiu esclarecer se ela foi concursada ou não.
Nomeada por Renan Calheiros (PMDB-AL) para comandar a secretaria-geral da Mesa, Cláudia foi acusada pela oposição de atuar para ajudar o senador a manobrar os processos contra o senador no conselho.
Agaciel foi acusado de mandar seus subordinados separar material que pudessem ser usados por Renan para pressionar seus adversários. Ambos negam favorecimento a Renan.
Raimundo Carreiro construiu sua trajetória no Senado, e empregou mulher, os três filhos e uma sobrinha -nenhum deles passou por concurso.
A mulher do ministro, Maria José Carreiro, é lotada na Diretoria Geral do Senado. Dois dos filhos trabalham meio período no serviço médico da Casa.
O diretor de RH Zoghbi tem mulher, um filho, a nora e a cunhada na área administrativa.
A mulher de Zoghbi, Denise, que dirige o Instituto Legislativo Brasileiro, tem salário de cerca de R$ 10 mil. Ex-chefe-de-gabinete de Sarney, João Roberto Baére atua na Consultoria do Senado. A irmã, Denise de Ortega Baére, é diretora da Secretaria de Taquigrafia.
Segundo a assessoria do Senado, os cargos comissionados na área técnica são 120 -54 na Presidência e Secretaria Geral da Mesa, 14 nas comissões temáticas, um no serviço médico, um nas relações públicas, seis no órgão central, 43 no órgão de assessoramento superior e um na coordenação de projeto.
Os números se chocam com a realidade do Senado. Presidentes das dez comissões, por exemplo, podem contratar até oito funcionários sem concurso. O Senado afirma que há só 14. Dois filhos de Carreiro estão no serviço médico, e o Senado disse que só tem um funcionário sem concurso na área.



Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 18h10
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Droga de Elite

Impunidade faz personagem real surgir nas estatísticas

Kayo Iglesias - do JB

Por motivos óbvios, as circunstâncias dificultam a precisão das estatísticas: usar droga é crime previsto no Código Penal. Mas, pela primeira vez, é traçado um perfil do consumidor declarado de drogas no Brasil - baseado em dados oficiais do IBGE.

O cruzamento dos números, feito por economistas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), confirma um padrão que, por vezes, aparece na tela do cinema, como em Tropa de elite: o homem, jovem, rico e com acesso à universidade que compra drogas é real. E, segundo o coordenador do trabalho, Marcelo Néri, não tem medo de se mostrar porque considera-se imune à lei.

O capítulo sugestivamente intitulado Droga de elite faz parte da pesquisa O estado da juventude: drogas, prisões e acidentes, coordenada pelo Centro de Políticas Sociais da FGV e divulgada ontem. Os técnicos utilizaram como base a última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, feita em 2003, em que cerca de 0,06% da população declarou ter gastos com drogas.

- A única fonte de dados que existe sobre isso é a apreensão de drogas, que depende da existência da polícia e dos bandidos e só abrange o atacado. Essa pesquisa joga uma luz sobre o assunto. Não é uma luz do dia, ainda, mas uma lanterna - compara Néri.

A média de gastos com droga dos que se declaram usuário é de R$ 75 por mês, em valores corrigidos. A elite (leia-se: classes A e B) é representada por 72,54% dos usuários assumidos.

- Esse usuário de classe mais alta tende mais a se mostrar por ter uma sensação de impunidade maior. Reflete as políticas de combate à droga centradas apenas no braço da oferta, e não da demanda. Não acho que a repressão total funcione - opina o coordenador. - Se analisarmos o outro capítulo da pesquisa, o perfil do presidiário é o mesmo: homem, jovem, até 29 anos. A diferença está na renda.

Do total dos consumidores assumidos de drogas, 99,18% são homens, 86,56% têm entre 10 e 29 anos, 85,1% são brancos e 80,46% exercem o papel de filhos na família - não sustentam a casa.

Outra estatística que chamou a atenção dos pesquisadores da FGV é o acesso à educação de quem não tem medo de se declarar usuário. Para se ter uma idéia, apenas 4,04% da população entrevistada na POF eram compostos por universitários. Entre o universo dos que usam drogas, o índice aumenta para 29,69%.

A pesquisa, que durou um mês e meio e está disponível na íntegra no site www.fgv.br, mostra como é a percepção da violência na opinião desses usuários. Perguntados se havia problemas relacionados a crimes na vizinhança, 63,62% responderam sim.

- Isso poderia ser considerado um fator afastado da elite, mas pode se referir, por exemplo, ao jovem que mora próximo à boca- de-fumo - avalia Néri.



Escravos do século 21
por Antonio Carlos dos Reis "Salim"*

A escravidão no Brasil, como se sabe, foi extinta pela Lei Áurea, promulgada pela princesa Isabel em 13 de maio de 1888. Infelizmente, esse importante marco legal da história do Brasil não foi suficiente para erradicar de modo pleno, em termos práticos, esse flagelo humano. É triste saber que ainda há no país mais de 180 empresas que exploraram a deplorável prática, conforme constatado pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

Os escravos do século 21 atuam, principalmente, na pecuária de corte, extração de carvão e colheita de algodão e soja. Pior é que essa absurda situação atinge também os menores de idade. Dentre as 226.943 empresas fiscalizadas pelo ministério entre janeiro e agosto deste ano, mais de quatro mil crianças, de até 16 anos, muitas na primeira infância, foram encontradas trabalhando. Será que teremos de promulgar uma nova Lei do Ventre Livre?

O ministério lançou programa, em 1995, que visa a erradicar o trabalho escravo no Brasil, por meio de fiscalização, coordenada pela Secretaria de Inspeção do Trabalho. Essa ação regularizaria os vínculos empregatícios, além de libertar trabalhadores submetidos a situações ilegais. Infelizmente, um grupo de senadores alegou não ter constatado eficácia da atuação dos fiscais e pediu a suspensão das ações do Grupo Especial de Fiscalização Móvel. A argumentação foi que uma empresa no Pará, um dos focos das investigações, não possuía mais trabalhadores em condições precárias.

Fiscais da Delegacia Regional do Trabalho do Pará estiveram nessa empresa em outubro e dezembro de 2006 e fevereiro deste ano e constataram irregularidades. Porém, não se configurava o trabalho escravo. Mas, em julho, o grupo móvel libertou 1.064 pessoas. Pelo bem de todos os trabalhadores, o Ministério do Trabalho já conseguiu retomar essas atividades, que ficaram paralisadas pelo menos quinze dias.

Exploração não acontece apenas em fazendas do interior. Podemos encontrá-la nas capitais, como São Paulo. Algumas empresas, de bairros como Bom Retiro e Brás, aproveitam que muitos estrangeiros, principalmente bolivianos, estão ilegalmente no Brasil e oferecem situações precárias de trabalho, com baixíssimo salário e jornadas abusivas.

O que não conseguimos entender é como o Senado, que se diz tão preocupado com as condições empregatícias do Brasil, pôde autorizar a suspensão das ações do Grupo Especial de Fiscalização Móvel. Esse gesto foi um convite aos abusos e à impunidade.

O país evoluiu muito desde a Lei Áurea, uma resposta da agonizante monarquia às então novas tendências filosóficas, políticas, econômicas e humanistas que marcaram o ocaso do século 19 e o limiar do século 20. Que a República, fruto das mesmas transformações históricas, possa honrar, neste Brasil do século 21, o mais precioso patrimônio humano e paradigma essencial da democracia: a liberdade!

*Antonio Carlos dos Reis "Salim" é presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo (Stieesp) e da Federaluz e vice-presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT).



Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 08h22
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Opinião

Lulismo x Petismo

É certo que a imagem política do PT é hoje altamente questionada até pelos próprios petistas. Umas séries de escândalos, envolvendo corrupção, ocorreram e estão ocorrendo, na gestão Lula. No primeiro mandato, Lula contava com uma equipe de ministros endeusados, bem vistos pela opinião pública, e bem vistos pela crítica informativa. Porém, quase todos foram derrubados pelas ondas do mensalão e das quase 20 CPI’s instauradas pelos próprios companheiros de partido.

Lula carrega o PT nas costas. Sempre foi assim. Desde o primeiro mandato, o partido mostrou que não estava preparado para governar. Depois de tantos anos, o PT já deveria ter posto de lado suas divisões, suas tendências, e trabalhado mais como um partido no governo e não fazer oposição ou questionar as ações de seu próprio governo.

As contradições do partido são tantas que Lula teve até mesmo de tirar sua roupagem de presidente pra se colocar como militante e passar a mão na cabeça de um partido estraçalhado, chegando a ponto de praticamente anistiar os mensaleiros. Não foi uma boa jogada, mas Lula não tinha outra saída.

A diferença entre lulismo e petismo é tão grande que em todas as pesquisas de opinião o presidente está com a popularidade em alta e seu partido, não. Em todas as denúncias que se faz contra o governo, o PT está lá envolvido, como envolvidos estão vários integrantes do partido no julgamento do STF, mas nada atinge o presidente. Claro que partido e Lula vão se encontrar em algum momento, mas o futuro do PT depende essencialmente de Lula.

Sonia Carvalho
Elivana Marambaia
Nilzete Silveira
Jandira Barros
Contato: renatacarvalho15@hotmail.com



Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 08h15
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Como endireitar um esquerdista      
Escrito por Frei Betto   

Ser de esquerda é, desde que essa classificação surgiu na Revolução Francesa, optar pelos pobres, indignar-se frente à exclusão social, inconformar-se com toda forma de injustiça ou, como dizia Bobbio, considerar aberração a desigualdade social.

Ser de direita é tolerar injustiças, considerar os imperativos do mercado acima dos direitos humanos, encarar a pobreza como nódoa incurável, julgar que existem pessoas e povos intrinsecamente superiores a outros.

Ser esquerdista – patologia diagnosticada por Lênin como “doença infantil do comunismo” – é ficar contra o poder burguês até fazer parte dele. O esquerdista é um fundamentalista em causa própria. Encarna todos os esquemas religiosos próprios dos fundamentalistas da fé. Enche a boca de dogmas e venera um líder. Se o líder espirra, ele aplaude; se chora, ele entristece; se muda de opinião, ele rapidinho analisa a conjuntura para tentar demonstrar que na atual correlação de forças...

O esquerdista adora as categorias acadêmicas da esquerda, mas iguala-se ao general Figueiredo num ponto: não suporta cheiro de povo. Para ele, povo é aquele substantivo abstrato que só lhe parece concreto na hora de cabalar votos. Então o esquerdista se acerca dos pobres, não preocupado com a situação deles, e sim com um único intuito: angariar votos para si e/ou sua corriola. Passadas as eleições, adeus trouxas, e até o próximo pleito!

Como o esquerdista não tem princípios, apenas interesses, nada mais fácil do que endireitá-lo. Dê-lhe um bom emprego. Não pode ser trabalho, isso que obriga o comum dos mortais a ganhar o pão com sangue, suor e lágrimas. Tem que ser um desses empregos que pagam bom salário e concedem mais direitos que exige deveres. Sobretudo se for no poder público. Pode ser também na iniciativa privada. O importante é que o esquerdista se sinta aquinhoado com um significativo aumento de sua renda pessoal.

Isso acontece quando ele é eleito ou nomeado para uma função pública ou assume cargo de chefia numa empresa particular. Imediatamente abaixa a guarda. Nem faz autocrítica. Simplesmente o cheiro do dinheiro, combinado com a função de poder, produz a imbatível alquimia capaz de virar a cabeça do mais retórico dos revolucionários.

Bom salário, função de chefia, mordomias, eis os ingredientes para inebriar o esquerdista em seu itinerário rumo à direita envergonhada – a que age como tal , mas não se assume. Logo, o esquerdista muda de amizades e caprichos. Troca a cachaça pelo vinho importado, a cerveja pelo uísque escocês, o apartamento pelo condomínio fechado, as rodas de bar pelas recepções e festas suntuosas.

Se um companheiro dos velhos tempos o procura, ele despista, desconversa, delega o caso à secretária, e à boca pequena se queixa do “chato”. Agora todos os seus passos são movidos, com precisão cirúrgica, rumo à escalada do poder. Adora conviver com gente importante, empresários, ricaços, latifundiários. Delicia-se com seus agrados e presentes. Sua maior desgraça seria voltar ao que era, desprovido de afagos e salamaleques, cidadão comum em luta pela sobrevivência.

Adeus ideais, utopias, sonhos! Viva o pragmatismo, a política de resultados, a cooptação, as maracutaias operadas com esperteza (embora ocorram acidentes de percurso. Neste caso, o esquerdista conta com o pronto socorro de seus pares: o silêncio obsequioso, o faz de conta de que nada houve, hoje foi você, amanhã pode ser eu...).

Lembrei-me dessa caracterização porque, dias atrás, encontrei num evento um antigo companheiro de movimentos populares, cúmplice na luta contra a ditadura. Perguntou se eu ainda mexia com essa “gente da periferia”. E pontificou: “Que burrice a sua largar o governo. Lá você poderia fazer muito mais por esse povo”.

Tive vontade de rir diante daquele companheiro que, outrora, faria um Che Guevara sentir-se um pequeno-burguês, tamanho o seu aguerrido fervor revolucionário. Contive-me, para não ser indelicado com aquela figura ridícula, cabelos engomados, trajes finos, sapatos de calçar anjos. Apenas respondi: “Tornei-me reacionário, fiel aos meus antigos princípios. E prefiro correr o risco de errar com os pobres do que ter a pretensão de acertar sem eles”.

 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.



Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 20h19
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Tropa de Elite nas escolas

*por Gilberto Dimenstein

O filme "Tropa de Elite" deveria ser obrigatório nas escolas. Mais do que a envolvente denúncia da banalização do mal no Brasil, na qual policiais e bandidos se transformam em animais e criminosos, o filme provoca uma reflexão sobre a responsabilidade individual.
O inocente consumidor de maconha, sentindo-se conectado com a natureza ou com a leveza espiritual, ou o alto executivo que consome cocaína são apresentados também como sócios do tráfico --e com razão.

É fácil apenas culpar o governo, a polícia, os traficantes, e assim por diante. Mais difícil é nos culparmos --e, aí, está, um dos problemas brasileiros. A culpa é sempre dos outros. Vejamos:
Muito mais do que as drogas, o que mais mata no Brasil é o álcool, uma das causas das 100 mortes diárias e mais de 100 mil feridos por ano no trânsito. Nem os publicitários nem os veículos de comunicação que exibem os anúncios de cerveja, com sedutores apelos, se sentem minimamente responsáveis por essa tragédia. A culpa? Só do governo.
Um motoboy morre por dia apenas nas ruas da cidade de São Paulo (e mais 25 por dia ficam feridos). Isso porque contratam-se empresas irresponsáveis de entrega. Mesmo sabendo que já existe um selo de qualidade para moto frete. A culpa? Só do governo.
As pessoas emporcalham as ruas com lixo apenas porque não têm paciência de jogá-lo em algum lugar apropriado. Madames não se incomodam que seus cachorros façam das calçadas banheiros. A culpa? Só do governo que não limpa as ruas.
O governo sobe os impostos sem parar assim como contrata novos funcionários públicos sem parar. Pouco se faz contra essa extorsão. Nem mesmo sabemos como o orçamento é feito. De quem é a culpa? Do governo.
Deputados, senadores, vereadores cometem crimes e fazem negociatas, mas pouco acompanhamos seus mandatos. Durante a campanha, preferimos o show do marketing do que a análise de propostas. Até nos esquecemos em que votamos. De quem é a culpa? Dos políticos.
Não quero deixar, claro, de responsabilizar os governos. Mas apenas dizer que, num mundo civilizado, todos deveriam saber quais são seus direitos mas também seus deveres. Isso é o básico de cidadania, cuja discussão o filme, através da droga e da violência, lança com alto teor pedagógico _--portanto, deveria ser obrigatório na escolas.
É um bom debate para que saiamos dessa adolescência da cidadania, com muitos direitos e poucos deveres.

*

Assim como é obrigatório pensarmos que, no futuro, a droga não será um problema de polícia, mas apenas de saúde pública. Não sei se a repressão não acaba fazendo mais mal do que bem no combate ao vício.

 

Gilberto Dimenstein, 48, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve para a Folha Online às terças-feiras.



Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 20h08
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Impunidade agrava situação de trabalho escravo no Brasil Imprimir E-mail
ImageClique aqui para ouvir(1'58'' / 466 Kb) - De acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), das aproximadamente 200 denúncias de trabalho escravo feitas anualmente no Brasil, menos da metade são averiguadas. A Instituição ainda afirma que a impunidade é o fator responsável pela perpetuação da prática.

Informações do próprio Ministério do Trabalho (MET) mostram que 48 das 192 empresas incluídas na “lista suja”, onde constam os empregadores que usam mão-de-obra escrava em suas propriedades do trabalho, nunca regularizaram sua situação e já são veteranas no cadastro federal. A integrante da CPT do estado do Pará, Ana de Sousa Pinto, explica como o mecanismo da “lista”, além de não ser cumprido, não é totalmente eficaz.

“Essa medida da inclusão de fazendeiros na chamada “lista suja" faz com que eles fiquem impedidos no prazo de dois anos de terem acesso à recursos públicos, só que depois de permanecer dois anos na “lista suja” e não tendo mais denúncias, eles voltam a receber os recursos, o que faz disso uma punição, mas que é relativa”.

Ana ressalta que o número de Grupo Móvel de Trabalho do MTE responsável pela fiscalização do trabalho escravo é pouco. Atualmente existem apenas oito em todo país.

Desde do ano dois mil, mais de 23 mil vítimas de trabalho escravo foram libertadas no País. No entanto a CPT e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), afirmam que a cada ano, quase 40 mil pessoas são mantidas em situação de escravidão no Brasil.

O código penal brasileiro estabelece pena de dois a oito anos de prisão para a prática de trabalho escravo. No entanto, Ana ressalta que nunca um fazendeiro foi preso devido à prática do crime.

De São Paulo, da Radioagência NP, Juliano Domingues.


Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 19h59
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Bancada Ruralista dificulta combate ao trabalho escravo

A bancada ruralista cresceu 58% na atual legislatura da Câmara dos Deputados, e 59% de seus integrantes estão nos partidos da base aliada ao governo Lula, segundo levantamento feito neste mês pela ONG Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos). São 116 deputados (22,6% do total) contra 73 na legislatura 2003-2007. Os 68 ruralistas que apóiam Lula somam 18% da base governista.
Entidades não-governamentais, setores do governo e parlamentares da situação atribuem à bancada ruralista parte da responsabilidade pelo andamento arrastado de 11 projetos que têm algum tipo de punição a fazendeiros acusados de fomentar o trabalho escravo.
O principal deles é a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 438/2001, que prevê a expropriação de propriedades rurais com incidência de trabalho escravo. Ela chegou a ser aprovada no Senado, em dois turnos, e foi votada em primeiro turno na Câmara, em 2004, mas não entrou mais na pauta para a segunda votação. Uma das líderes da bancada no Congresso, a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), disse que o grupo decidiu não votar a emenda enquanto não seja redefinido o conceito de trabalho escravo.
O presidente da Câmara na época da primeira votação, Aldo Rebelo (PC do B-SP), 51, descreveu o papel dos ruralistas na discussão: "A bancada ruralista atuava sempre pelos líderes partidários, apresentava os pontos de vista e participava dos debates no plenário".
Indagado se a bancada pediu que a PEC não fosse votada, Aldo disse: "Não era diretamente para que não fosse a segundo turno, mas um esforço grande para que ela não fosse aprovada. E daí outro esforço para que houvesse uma redação que permitisse a votação e, portanto, a aprovação". Aldo disse que o governo "se empenhou na aprovação da PEC", mas "não transformou isso numa guerra, porque o governo trabalha em várias frentes, em atividades para as quais [escolhe] distribuir esforço e energia".
O ex-secretário dos Direitos Humanos do governo Lula (2003-2005), Nilmário Miranda (PT-MG), 60, disse que os ruralistas articularam um movimento contrário à PEC por meio dos líderes partidários: "A senadora Kátia Abreu era deputada na época, ela foi uma das próceres para impedir aquilo de qualquer maneira". Segundo ele, "há uma grande mobilização dentro da Câmara para impedir qualquer chance de aprovação da PEC".
O ex-secretário alegou que o governo "não abandonou a idéia" de aprovar a PEC, mas reconheceu que "sempre houve dificuldades, dentro da própria base do governo há contradições". Além disso, "não é segredo que há áreas do governo que não concordam [com a PEC]. O próprio Ministério da Agricultura na época não tinha nenhum entusiasmo por isso. Não trabalhava contra, mas não ajudava. Acho que ele não fez exatamente porque uma reação expressiva de um setor".

Resistência
Segundo Nilmário Miranda, o ex-ministro Roberto Rodrigues "não usou todo o potencial" para ajudar na aprovação da matéria. "Acho que ele não fez exatamente porque houve uma reação expressiva de um setor que votava com o governo na maioria dos casos", afirmou.
Segundo Nilmário, Aldo Rebelo "tinha um compromisso" de colocar a matéria para votar, mas isso ocorreu apenas em primeiro turno. "Entre o primeiro e o segundo turnos, aconteceu alguma coisa, eu não sei o que foi". Indagado, Aldo afirmou: "Havia receio de não obter os votos para aprovação e a matéria ir para arquivo, e os líderes tentaram encontrar uma redação que permitisse uma apreciação da matéria. E isso não foi alcançado".
Um deputado ruralista assim definiu a bancada, sob condição de não ter seu nome divulgado: "Eles estão presentes em quase todas as bancadas. Tinham uma referência importante no Ministério da Agricultura [ex-ministro Roberto Rodrigues], não tinham uma relação boa com o governo, [tinham] uma desconfiança grande do Lula. Eles têm uma pauta de reivindicação muito ampla, que vai da questão dos juros e do crédito dos recursos para safra, passa pelo preço dos insumos (...) e vai até as questões mais sensíveis e polêmicas, como reforma agrária e trabalho escravo".
Uma tese de doutorado defendida na USP (Universidade de São Paulo) neste mês pelo cientista político Leonardo Sakamotto vê uma relação entre a morosidade na apreciação dos projetos anti-escravagistas e as doações de campanha eleitoral.
Segundo ele, empresas agropecuárias acusadas de trabalho escravo, seus donos e parentes fizeram doações nas eleições de 2002 e 2004 que ajudaram a eleger dois governadores, cinco deputados federais, três deputados estaduais, três prefeitos e um vereador. Ele apontou ainda três deputados federais, um estadual e três prefeitos entre proprietários ou parentes de donos de fazendas autuadas por suposto trabalho escravo.



Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 19h57
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Por dentro do Brasil

Jornal espanhol classifica "Tropa de Elite" como fenômeno social

Redação Portal IMPRENSA

Em reportagem publicada na sua edição desta sexta-feira (19), o diário espanhol El País trata do polêmico filme brasileiro "Tropa de Elite", e o classifica como "um fenômeno social que desencadeou uma forte polêmica pública".

Sob o título de "A batalha do Rio de Janeiro, nas telas", o jornal confirma a repercussão internacional que o filme tem ganhado desde antes de sua estréia no exterior. Segundo conta o El País, "as filas para ver o filme são quilométricas. Vinte milhões de pessoas dizem tê-lo visto ou que o verão, e outras 12 milhões o piratearam".

O filme, baseado em fatos reais, conta a história de uma operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Às vésperas de uma visita do papa ao Brasil, em 1997, o batalhão recebe a missão de exterminar uma gangue de traficantes em uma favela próxima à casa do arcebispo do Rio.

"A polícia aparece como é, corrupta, às vezes mancomunada com os traficantes, aos quais vende inclusive armas; mas também imprescindível para lutar contra o narcotráfico", descreve o jornal.

"Os traficantes aparecem sem romantismo, terrivelmente violentos e dispostos a semear o terror e a morte para manter o controle do mercado". Na mesma linha do que falaram outros jornais sobre o filme, o El País conta que o Bope, que tinha reputação de incorruptível quando nasceu, é visto hoje como uma entidade brutal.

"O longa-metragem não deixa ninguém indiferente. Há os que o aplaudem de pé e os que se incomodam com as cenas de tortura, mas ninguém fica impassível", diz o diário espanhol. "Além do mais, é uma bofetada na classe média que consome drogas: diz sem meias palavras que cada cigarro de maconha ou cada grama de cocaína que se compra contribui para que floresçam mais traficantes, mais violência, e mais mortes", completa. As informações são da agência BBC.



Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 17h24
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Por dentro da China

O futuro do dragão

por Antonio Luiz M.C. Costa - da Carta Capital

O congresso comunista sacramenta uma nova estratégia para o capitalismo

As aparências enganam. © Ng Han Guan/AP 
 Na China, como outrora na URSS, os congressos do Partido não tomam decisões reais, mas, ao sacramentar novas fórmulas e a ascensão de figurões ao comitê central do Politburo, permitem entrever tendências, preocupações e conflitos internos de burocracias que passam a maior parte do tempo encenando união monolítica e harmoniosa continuidade.

Sinais importantes podem estar contidos no que, aos ouvidos do Ocidente, soa vazio ou enigmático. Como quando este 17º Congresso do PC chinês, além de garantir a reeleição do presidente Hu Jintao para o segundo e último mandato de cinco anos, consagrou na constituição (programa) do partido o seu lema de “Desenvolvimento pela Visão Científica”, junto com o marxismo-leninismo, o Pensamento de Mao, a Teoria de Deng Xiaoping e a tese das Três Representações consagrada pelo predecessor Jiang Zemin em 2002, acrescentando sua própria camada geológica para reduzir as políticas precedentes a meros fósseis, objetos de homenagens rituais e vazias.

As três coisas que o partido devia representar, para Jiang, eram as “necessidades do desenvolvimento das forças produtivas, da orientação da cultura da China e dos interesses fundamentais da esmagadora maioria do povo”. Pode parecer anódino, mas é uma ruptura brutal com a tradição para a qual um Partido Comunista deveria representar, em primeiro lugar, o interesse dos operários e camponeses.

A prioridade das “forças produtivas” – junto com a abertura das fileiras do Partido aos empresários desde então incluídos na “esmagadora maioria” – significou, na prática, uma exacerbação do capitalismo autoritário para o qual a China se dirigia desde a virada iniciada por Deng em 1978. Isso diluiu as fronteiras entre público e privado, governo e empresas, multiplicando modalidades e oportunidades para a corrupção, enquanto o crescimento do PIB e a prosperidade do capital, articulado à “orientação” estrita da vida cultural, tornou-se o parâmetro único de Pequim.

Nesse contexto, a “visão científica” de Hu Jintao veio como uma retificação no sentido de mais regulamentação e planificação racional, mais atenção a questões sociais e ambientais e à inserção do país como potência econômica e militar global. Uma fórmula algo mais civilizada e equilibrada de desenvolvimentismo, disposta a moderar o despotismo do mercado pelo das razões de Estado, das estratégias de longo prazo.

Mal comparando, como passar de Roberto Campos a Delfim Netto, embora a escala, a profundidade e as potenciais conseqüências geopolíticas do processo chinês sejam mais sérias (e perigosas) que as de qualquer outro processo de modernização autoritária do século XX – incluindo não só o Brasil, como também Alemanha, Japão e Rússia.

O discurso de Hu também enfatiza como metas a transição da dependência das exportações para o consumo interno e do uso extensivo de recursos naturais e mão-de-obra barata para o desenvolvimento intensivo, focado em ciência, tecnologia, aumento de produtividade e qualificação da mão-de-obra.

Foi bem a tempo, se é que não foi pouco e tarde demais, pois até uma insuspeita paladina do mercado como a revista The Economist põe-se a advertir os líderes chineses da gravidade do quadro social dos camponeses. Segundo a revista (edição de 19 de outubro) muitos deles têm saudades dos “médicos descalços” da Revolução Cultural maoísta que, bem ou mal, garantiam cuidados de saúde rudimentares, mas praticamente gratuitos, aos mais desprovidos trabalhadores das cooperativas hoje extintas.

Na era da Teoria de Deng e das Três Representações, os camponeses foram privados até mesmo de cuidados básicos de saúde e educação – e, em algumas regiões, 60% das famílias em miséria extrema, diz a revista, foram levadas a essa situação por despesas médicas.

Já a Visão Científica pôs à disposição da maioria das comunidades rurais, desde 2003, um seguro-saúde que, mediante uma contribuição módica (dispensada em caso de extrema pobreza), cobre 40% a 60% das despesas médicas (quanto melhor o hospital, menor a porcentagem) acima de certa franquia. Menos do que alguns países periféricos francamente capitalistas, como o Brasil e a Tailândia, e insuficiente para as condições chinesas.

Para camponeses que ganham em média 280 yuans mensais, a franquia de 100 yuans (para os hospitais mais modestos – outros chegam a 600 yuans) é bem considerável e mesmo 40% das despesas de uma hospitalização trivial, que pode representar centenas ou milhares de yuans, podem ser demais. O problema é agravado por médicos que prescrevem exames e medicamentos mais caros que o necessário para aumentar seus ganhos.

O sistema ameniza os gastos com saúde dos camponeses mais prósperos, mas os mais pobres acabam por morrer em casa para não levar suas famílias à falência – apesar de serem forçados a participar desse sistema teoricamente voluntário, visto que as contribuições são deduzidas dos subsídios agrícolas, outra novidade da era Hu. Nas cidades, os empregadores são obrigados a fornecer seguro-saúde desde o início de 2007, mas esse benefício não chega aos “informais”, maioria entre migrantes recém-chegados do campo.

Outro progresso – ou regresso parcial – de benefícios associados à Visão Científica é a educação gratuita. Desde 2005, as taxas de matrícula foram abolidas e algumas províncias fornecem livros gratuitos e pensões subsidiadas. Junto com a abolição dos impostos rurais em 2004 (viabilizada pela redução do peso da agricultura a menos de 12% do PIB) e a alta dos preços de alimentos, isso melhorou a renda líquida no campo. Mas o fim dos impostos rurais também minou o orçamento das municipalidades rurais, obrigadas a reduzir a quantidade de escolas e de professores e a qualidade do ensino.

No que se refere à proteção ambiental e ao combate à corrupção, também parece haver alguma evolução. Um número crescente de bodes expiatórios tem sido condenado e Hu fez um bocado de alarde disso durante o Congresso. Mas as críticas e denúncias, quando não partem do governo, continuam malvistas e podem ser perigosas para seus autores. A dissidência ainda é vista como um perigo maior do que qualquer dessas mazelas.

E a maior garantia contra qualquer risco sério de dissidência ou insatisfação, mesmo do campo, é mesmo o “milagre” chinês, ante o qual até mesmo aqueles que teriam mais motivo para protestar acreditam que sua vida vai melhorar em breve. O ritmo do crescimento manteve uma média de 10,2% ao ano no primeiro governo Hu, ante 9,8% nos dez anos de Jiang. Acima de todo o discurso “científico” continua a meta de quadruplicar a renda per capita de 2000 a 2020. Isso significa um crescimento anual médio do PIB superior a 7,8% ao longo de todo o período – ou, considerando que o valor já quase dobrou nos últimos sete anos, um crescimento anual de 6,8% no resto do período.

Parece dentro do possível e levaria a China, ao fim do período, a uma renda per capita comparável à que hoje tem Portugal ou Hungria – um patamar que Hu chama de “sociedade moderadamente próspera” – e um PIB que, convertido pela taxa de câmbio, só seria inferior ao dos EUA ou da União Européia e, segundo a paridade de poder aquisitivo, pode superar a soma de ambos.

Como descobriram, porém, aqueles que apostaram no futuro do Brasil Potência de Médici, extrapolar tendências pode ser enganoso. Embora a China não tenha dívida externa – é a maior credora do mundo, hoje com 1,43 trilhão de dólares em reservas que crescem mais de 1 bilhão por dia – os desafios ao crescimento mudarão de qualidade nos próximos anos.

A inflação, que desde 1997 se mantinha em patamares muito baixos (média de 1% ao ano, com pico de 3,9% em 2004), acumulou 6,5% nos 12 meses encerrados em agosto – e as pressões inflacionárias são cada vez mais difíceis de conter, à medida que o crescimento pressiona os preços das matérias-primas não só do país, como de todo o mundo. A valorização da moeda chinesa pode compensá-las em parte, mas ao custo de prejudicar ainda mais as exportações ameaçadas pelo esfriamento do consumo dos EUA. O crescimento do mercado interno chegará a tempo de restaurar o equilíbrio?

De uma maneira mais fundamental, com a nova dimensão da economia e a desejada mudança de rumo do crescimento, o desenvolvimento da China deixa de ser complementar às necessidades dos países centrais. Até agora, a China os ajudou a conter salários e preços de matérias-primas e proporcionar lucros fantásticos a suas transnacionais sem pressionar a inflação. Mas a transição de industrialização extensiva para aperfeiçoamento tecnológico intensivo, mão-de-obra mais protegida e qualificada e produtos superiores a fará um concorrente cada vez mais direto por mercados, energia, matérias-primas e direitos de poluir, colocando-a em rota de colisão geopolítica com as demais potências.

Talvez seja ainda mais sério o risco de colapso ambiental, que pende como espada de Dâmocles sobre grande parte do país. Este ano, o Lago Taihu, centro turístico e fonte de pescado e água para 2 milhões de pessoas perto de Wuxi, foi tomado por algas e bactérias alimentadas pela poluição. As cidades vizinhas tiveram de cortar o fornecimento e seus habitantes compraram água engarrafada, cujo preço sextuplicou antes de ser tabelado. O governo teve de fechar 1,3 mil fábricas ao redor para tentar controlar o problema.

E depois de 2012? O sucessor de Hu Jintao será provavelmente escolhido entre dois líderes regionais. Um é Li Keqiang, indicado por Hu, líder de uma província do Nordeste (Liaoning), notado por programas sociais em habitação e provavelmente favorável à mesma estratégia. O outro, Xi Jinping, tido como favorito de Jiang Zemin, é líder em Xangai, coração do capitalismo chinês e provavelmente representa os interesses mais imediatos das alianças entre a burocracia partidária e a nova classe empresarial. Suas realizações mais visíveis: sobreviveu ao expurgo por corrupção que, em 2006, levou à prisão boa parte da cúpula partidária da metrópole, inclusive seu predecessor, e inaugurou o terceiro maior arranha-céu do mundo, o Shanghai World Financial Center. Mais do mesmo ou retrocesso ao descaso total por questões sociais e ambientais: a democratização continua distante.



Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 17h20
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Da Carta Capital

Vendas aqui, vagas lá

por Márcia Pinheiro

A indústria cresce, mas o mercado de trabalho patina. Fruto das importações e da insegurança das empresas nacionais

Há um evidente descompasso entre o crescimento da produção industrial brasileira e o aumento do emprego. O número de vagas criadas no setor cresceu 0,2% em agosto, ante julho, e 1,6% no acumulado do ano. Já a produção registrou alta de 5,3% nos primeiros oito meses em 2007. Os dados foram anunciados, na segunda-feira 15, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre 1,6% e 5,3%, há uma diferença considerável.

Dois fatos explicam essa distorção. Em primeiro lugar, a produção brasileira aumenta de forma muito pouco harmônica. Três setores tiveram resultados bastante positivos ao longo do ano, no quesito emprego: alimentos e bebidas (+ 4,4%), meios de transporte (+ 5,8%) e produtos de metal (+ 6,3%). Já os segmentos que sofrem a concorrência direta dos produtos importados mostraram variação negativa, caso de calçados e artigos de couro (– 6,5%), vestuário (– 4,8%) e madeira (– 5,9%).

Mas mesmo os segmentos bem-sucedidos têm forte coeficiente de produtos importados, diz Daví José Nardy Antunes, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Unicamp. Também por isso, o efeito sobre a criação de vagas de trabalho é muito pequeno, explica. Em razão do câmbio valorizado, o crescimento das importações tem sido “avassalador”, afirma Antunes. De janeiro a setembro, houve um salto de 28,3%, nas importações, para 85,6 bilhões de dólares, ante um aumento bem menor, de 15,5% para 116,6 bilhões de dólares, nas exportações brasileiras.

O segundo fato que esclarece o descompasso entre a produção e o emprego é a folha de pagamento real (descontada a inflação). Cresceu 4,8% no acumulado de 2007, o que significa que os setores em expansão lançam mão de terceiros turnos, ou horas extras, para fazer frente ao aumento do consumo das famílias. Escaldados com vôos de galinha do passado, os empresários aguardam sinais mais firmes para efetuar contratações.

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) lembra que há uma clássica defasagem entre o crescimento industrial e o emprego. Em 2004, por exemplo, a produção avançou 8,4% e as vagas aumentaram apenas 1,8%. O efeito posterior de abertura de postos de trabalho não se concretizou, porque o Comitê de Política Monetária (Copom) iniciou um processo violento de aceleração da taxa básica de juro em outubro daquele ano, que subiu de 16,25% para 19,75% em maio de 2005. E o Produto Interno Bruto (PIB) naquele ano cresceu apenas 2,3%.

Por isso, gerou muita apreensão o encontro do comitê na quarta-feira 17. Surpreendeu grande parte do mercado financeiro o fato de o BC ter mantido a taxa básica de juro (Selic) estável, em 11,25% ao ano, quando a aposta de muitos era de uma nova queda de 0,25 ponto porcentual. Mesmo porque não houve motivos objetivos para tal cautela. Uma pesquisa feita pelo próprio BC e divulgada na segunda-feira 15 indicou que, na média, cerca de cem instituições financeiras e consultorias esperam uma inflação, medida pelo IPCA, de 3,91% neste ano e de 4,10% em 2008. Ambas, bom lembrar, abaixo da meta de 4,5%.

No mais, não combina com o discurso otimista do presidente Lula e do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Ambos insistem em afirmar que, apesar da crise imobiliária americana, o Brasil não vai sofrer reveses, por conta de “fundamentos sólidos”. “Passada a turbulência, os capitais vão procurar fazer investimentos mais seguros nos países sólidos e, certamente, hoje o Brasil está entre eles”, afirmou Mantega recentemente. “Talvez até faça com que o investment grade (grau de investimento atribuído por agências de classificação de riscos) chegue mais rapidamente.”

A decisão dos dirigentes do BC também deve ter jogado um balde de água fria no otimismo do ministro do Trabalho, Carlos Lupi. Na mesma segunda-feira 15, ele anunciou a criação de 251,2 mil novas vagas em setembro. Lupi estima que 2007 possa encerrar com a criação de 1,6 milhão de empregos, superando o recorde de 1,523 milhão de 2004. “Se puxarmos o freio de mão agora, o carro pode capotar”, alertou o ministro, a respeito da taxa básica de juro.
O recorde é reconhecido por Antunes, da Unicamp, que, no entanto, o considera modesto e fruto de esforços outros que não o crescimento do País. “Inegavelmente, houve um aumento da formalização dos postos de trabalho no governo Lula, porque a fiscalização nas empresas é mais rigorosa e o Ministério Público tem atuado ativamente na denúncia de irregularidades”, diz o economista.

O capotamento do carro econômico nativo, provocado pela ortodoxia do BC, ocorreria em um ambiente nada satisfatório. A começar pelo fato de que, sazonalmente, o segundo semestre é o melhor período para a indústria, por causa da necessidade de aumentar os estoques para as sazonais festas de fim de ano. Além disso, o nível de desemprego brasileiro é de 9,5% da População Economicamente Ativa (PEA), composta de 23,3 milhões de cidadãos. Elevado. O salário médio dos empregados com e sem carteira assinada é de 1.109 reais ao mês.

A solução seria o País crescer mais aceleradamente, diz Antunes. E ele faz questão de frisar a importância da participação do Estado no processo. “É preciso superar a visão de que gasto de governo não é investimento. Há um papel importante na geração de empregos públicos, como médicos e professores, que também formariam uma mão-de-obra mais qualificada”, diz.

O fato é que o desemprego no País deu um salto de 6% em 1995, atingiu 10%, em 1999, e hoje patina na casa dos 9%, diz Lena Lavinas, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Por isso, a especialista vê com bons olhos os efeitos multiplicadores que terão as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), sobretudo nos municípios.

“Mas é um perfil de trabalho eminentemente masculino, por ter como eixo a construção civil, e remunerações de até dois salários mínimos”, afirma. Ainda assim, ela acredita que o plano terá um impacto direto tanto no mercado formal quanto no informal, a favorecer as camadas mais pobres da população. São exemplos simples, mas que fazem a diferença: os operários usam os serviços dos perueiros e consomem os sanduíches dos ambulantes, exemplifica. No entanto, lamenta, “o desenho das demais políticas macroeconômicas não permite que o ciclo de estagnação do emprego transite para uma fase de resultados positivos”.

Os números oficiais não captam o chamado bico, que não é pequeno. A economia informal corresponde a 45% do total dos empregos do País, conforme estudo do Iedi com base em informações da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Para um crescimento mais robusto e de qualidade, Lena insiste na tecla de Antunes. O real sobrevalorizado não permite que haja um ciclo em direção a um crescimento de qualidade no País. Ainda mais depois da reunião do BC, que divulgou um pálido e incompreensível comunicado: “Avaliando a conjuntura macroeconômica, o Copom decidiu, por unanimidade, fazer uma pausa no processo de flexibilização da política monetária e manter a taxa Selic em 11,25% ao ano, sem viés”



Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 17h14
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Da Época

Por que o brasileiro não reclama?

Na volta para casa, na hora do rush, a barriga de nove meses da operadora de caixa Josy de Sousa Santos, de 30 anos, vai espremida entre os passageiros do metrô que liga Brasília a Ceilândia, na periferia da capital. Josy, assim como outras gestantes, mulheres com bebê no colo, idosos e pessoas com deficiência, tem direito a um assento especial em transporte público. É o que diz a Lei Federal no 10.048, em vigor desde 2000. No aperto do trem, porém, são poucas as pessoas que cedem o lugar especial à grávida. Josy não reclama. “Não peço, não gosto de incomodar nem de criar confusão”, diz. Nesse mesmo metrô, até dois anos atrás, o aposentado Antônio Alves Barbosa, de 76 anos, queixava-se quando não lhe cediam o espaço reservado para idosos. Depois que um jovem o agrediu verbalmente, desistiu de reclamar. “Ele disse que velho tinha de morrer”, afirma Barbosa.

Não se trata de um problema exclusivo do metrô de Brasília. O brasileiro não tem o hábito de protestar no cotidiano. A corrupção dos políticos, o aumento de impostos, o descaso nos hospitais, as filas imensas nos bancos e a violência diária só levam a população às ruas em circunstâncias excepcionais. Por que isso acontece? A resposta a tanta passividade pode estar em um estudo de Fábio Iglesias, doutor em Psicologia e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB). Segundo ele, o brasileiro é protagonista do fenômeno “ignorância pluralística”, termo cunhado pela primeira vez em 1924 pelo americano Floyd Alport, pioneiro da psicologia social moderna.

Não peço, não gosto de incomodar, de criar confusão
Josy de Sousa Santos, grávida de nove meses, que viaja de pé no metrô, apesar de ter direito a um assento

“Esse comportamento ocorre quando um cidadão age de acordo com aquilo que os outros pensam, e não por aquilo que ele acha correto fazer. Essas pessoas pensam assim: se o outro não faz, por que eu vou fazer?”, diz Iglesias. O problema é que, se ninguém diz nada e conseqüentemente nada é feito, o desejo coletivo é sufocado. O brasileiro, de acordo com Iglesias, tem necessidade de pertencer a um grupo. “Ele não fala sobre si mesmo sem falar do grupo a que pertence.”

Iglesias começou sua pesquisa com filas de espera. Ele observou as reações das pessoas em bancos, cinemas e restaurantes. Quando alguém fura a fila, a maioria finge que não vê. O comportamento-padrão é cordial e pacífico. Durante dois meses, ele analisou o pico do almoço num restaurante coletivo de Brasília. Houve 57 “furadas de fila”. “Entravam como quem não quer nada, falando ao celular ou cumprimentando alguém. A reação das pessoas era olhar para o teto, fugir do olhar dos outros”, afirma. O aeroviário carioca Sandro Leal, de 29 anos, admite que não reage quando vê alguém furar a fila no banco. “Fico esperando que alguém faça alguma coisa. Ninguém quer bancar o chato”, diz.

Iglesias dá outro exemplo comum de ignorância pluralística: “Quando, na sala de aula, o professor pergunta se todos entenderam, é raro alguém levantar a mão dizendo que está com dúvidas”, afirma. Ninguém quer se destacar, ocorrendo o que se chama “difusão da responsabilidade”, o que leva à inércia.

Mesmo quem sofre uma série de prejuízos não abre a boca. É o caso da professora carioca Maria Luzia Boulier, de 58 anos. Ela já comprou uma enciclopédia em que faltava um volume; pagou compras no cartão de crédito que jamais fez; e adquiriu, pela internet, uma esteira ergométrica defeituosa. Maria Luzia reclamou apenas neste último caso. Durante alguns dias, ligou para a empresa. Não obteve resposta. Foi ao Procon, mas, depois de uma espera de 40 minutos, desistiu de dar queixa. “Sou preguiçosa. Sei que na maioria das vezes reclamar não adianta nada”, afirma.

O “não-vai-dar-em-na-da” é um discurso comum entre os “não-reclamantes”. O estudante de Artes Plásticas Solano Guedes, de 25 anos, diz que evita se envolver em qualquer situação pública. “Sou omisso, sim, como todo brasileiro. Já vi brigas na rua, gente tentando arrombar carro. Mas nunca denuncio. É uma mistura de medo e falta de credibilidade nas autoridades”, afirma.

A apatia diante de um escândalo público também é freqüente no Brasil. Nas décadas de 80 e 90, o contador brasiliense Honório Bispo saiu às ruas para lutar pelas Diretas Já e pelo impeachment do ex-presidente Fernando Collor. No mês passado, quando o plenário do Senado realizou uma sessão secreta para julgar o presidente da casa, Renan Calheiros, o contador tentou reunir alguns colegas para uma manifestação em frente ao Congresso Nacional. Poucos compareceram. Depois disso, Bispo disse que ficou desestimulado. “Os movimentos estudantis não se mobilizam mais. A UNE sumiu”, diz, referindo-se à outrora influente União Nacional dos Estudantes.

Sou preguiçosa. Sei que na maioria das vezes não adianta reclamar
Maria luzia boulier, professora que desistiu de reclamar de uma esteira ergométrica entregue com defeito

O estudo da UnB constatou que a “cultura do silêncio” também acontece em outros países. “Portugal, Espanha e parte da Itália são coletivistas como o Brasil”, afirma o psicólogo. Em nações mais individualistas, como em certos países europeus, os Estados Unidos e a vizinha Argentina, o que conta é o que cada um pensa. “As ações são baseadas na auto-referência”, diz o estudo. Nos centros de Buenos Aires e Paris, é comum ver marchas e protestos diários dos moradores. A mídia pode agir como um desencadeador de reclamações, principalmente nas situações de política pública. “Se o cidadão vê na mídia o que ele tem vontade de falar, conclui que não está isolado”, afirma o pesquisador.

O antropólogo Roberto DaMatta diz que não se pode dissociar o comportamento omisso dos brasileiros da prática do “jeitinho”. Para ele, o fato de o povo não lutar por seus direitos, em maior ou menor grau, também pode ser explicado pelas pequenas infrações que a maioria comete no dia-a-dia. “Molhar a mão” do guarda para fugir da multa, estacionar nas vagas para deficientes ou driblar o engarrafamento ao usar o acostamento das estradas são práticas comuns e fazem o brasileiro achar que não tem moral para reclamar do político corrupto. “Existe um elo entre todos esses comportamentos. Uma sociedade de rabo preso não pode ser uma sociedade de protesto”, diz o antropólogo.

O sociólogo Pedro Demo, autor do livro Cidadania Pequena s (ed. Autores Associados), diz que há baixíssimos índices de organização da sociedade civil – decorrentes, em boa parte, dos também baixos índices educacionais. Em seu livro, que tem base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o sociólogo conclui que o brasileiro até se mobiliza em algumas questões, mas não dá continuidade a elas e não vê a importância de se aprofundar. Um exemplo é o racionamento de energia ocorrido há cinco anos: rapidamente as pessoas compreenderam a necessidade de economizar. Passada a urgência, não se importaram com as razões que levaram à crise. Para o sociólogo, além de toda a conjuntura atual, há o fator histórico: a colonização portuguesa voltada para a exploração e a independência declarada de cima para baixo, por dom Pedro I, príncipe regente da metrópole. “Historicamente aprendemos a esperar que a decisão venha de fora. Ainda nos falta a noção do bem comum. Acredito que, ao longo do tempo, não tivemos lutas suficientes para formá-la”, diz Demo.

Já vi roubo de carro e não denunciei
Solano Guedes, estudante de Artes Plásticas que evita se envolver em situações de confl ito em público

A historiadora e cientista política Isabel Lustosa, autora da biografia Dom Pedro I, um Herói sem Nenhum Caráter (ed. Companhia das Letras), acredita que os brasileiros reclamam, sim, mas têm dificuldades de levar adiante esses protestos sob a forma de organizações civis. “Nas filas ou mesas de bar, as pessoas estão falando mal dos políticos. As seções de leitores de jornais e revistas estão repletas de cartas de protesto. Mas existe uma espécie de fadiga em relação aos resultados das reclamações, especialmente no que diz respeito à política.” Segundo Isabel, quem mais sofre com a falta de condições para reclamar é a população de baixa renda. Diante da deterioração dos serviços de educação e saúde, o povo fica sem voz. “Esses serviços estão pulverizados. Seus usuários não moram em suas cercanias. A possibilidade de mobilização também se pulveriza”, diz.

Apesar das explicações diversas sobre o comportamento passivo dos brasileiros, os estudiosos concordam num ponto: nas filas de espera, nos direitos do consumidor ou na fiscalização da democracia, é preciso agir individualmente e de acordo com a própria consciência. “Isso evita a chamada espiral do silêncio”, diz o pesquisador Iglesias. O primeiro passo para a mudança é abrir a boca.



Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 17h03
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Heloísa Helena: denúncia é de irregularidade no financiamento<br> de campanha
Lama sem fim

HELOÍSA HELENA: AÇÃO CONTRA AZEREDO
É PARA EVITAR ARQUIVAMENTO

 do Conversa Afiada

A presidente do PSOL, Heloísa Helena, protocolou no Senado nesta quinta-feira, dia 18, uma representação por quebra de decoro parlamentar contra o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). A representação contra Azeredo está relacionada às investigações da CPI dos Correios.

Heloísa Helena disse em entrevista a Paulo Henrique Amorim nesta quinta-feira que a representação é uma medida cautelar, para se antecipar à denúncia da PGR (Procuradoria Geral da República).

“Para antecipar a representação e encaminhar agora, antes da decisão do Supremo e antes da decisão da Procuradoria Geral da República”, disse Heloísa Helena (clique aqui para ouvir o áudio).

A denúncia que a PGR deve apresentar à Mesa do Senado pede o encaminhamento do processo ao Supremo. Já a representação do PSOL pede o encaminhamento da denúncia ao Conselho de Ética do Senado. Portanto, ao se antecipar à PGR, o PSOL evita que a Mesa do Senado arquive a representação por repetir a denúncia da Procuradoria.

Segundo Heloísa Helena, a denúncia trata da “promiscuidade entre as estruturas de financiamento de campanha e o 'pagamento' desses financiamentos de campanha após a conquista de mandatos do Executivo". Ela disse que no caso do senador Azeredo a “triangulação” não se configurou porque ele não venceu a eleição para governador de Minas Gerais.

Clique aqui para ler a íntegra da representação do PSOL.

Leia a íntegra da entrevista com Heloísa Helena, presidente do PSOL:

Paulo Henrique Amorim – Entrou hoje a sexta representação contra Renan Calheiros e a primeira contra Eduardo Azeredo. A sexta representação contra Renan Calheiros versa sobre que suspeita de irregularidade?

 

Heloísa Helena – Infelizmente, mais uma vez, foram apresentadas provas na matéria do Estadão, que tratam dos mesmos crimes contra a administração pública que já vinham sendo investigados em outros procedimentos investigatórios. O ideal seria que nós não entrássemos com nova representação, que o próprio Conselho de Ética acatasse o requerimento de aditamento que fizemos, para que isso fosse investigado. Até porque são as mesmas denúncias com provas de tráfico de influência, intermediação de interesses privados, exploração de prestígio, corrupção passiva e ativa, formação de quadrilha. Então, são os mesmos crimes contra a administração pública que já vinham sendo denunciados em outros procedimentos investigatórios. Infelizmente, com a decisão de não acatar, então, para não agir em conluio, acobertando, nós tivemos que apresentar um novo requerimento para a abertura de um novo procedimento investigatório.

 

Paulo Henrique Amorim – Hoje entrou o primeiro procedimento de autoria do PSOL contra um tucano, que é o senador Eduardo Azeredo. O que a senhora suspeita com relação ao senador Eduardo Azeredo?

 

Heloísa Helena – Olha, no caso do senador, é relacionado ao que a Comissão Parlamentar de Inquérito já tinha investigado, a CPI que ficou conhecida como CPI dos Correios, que tratava dessa questão. Claro que no momento, mesmo a CPI tendo poder de investigação próprio das autoridades judiciais e, portanto, quebrando sigilos bancário, fiscal e telefônico, o relatório final da CPI não encontrou, não entendeu que havia provas suficientes para notificar o senador. Isso acabou sendo analisado no Conselho de Ética. Claro que, como você sabe, tem uma decisão da Mesa do Senado copiando uma decisão da Mesa da Câmara em não mandar aos conselhos de ética as representações que solicitem procedimentos investigatórios de casos anteriores ao mandato, você lembra que no caso quando nós entramos contra o senador de Brasília Gim Argelo, a Mesa arquivou o processo. Nós entramos com uma representação no Supremo, para que o Supremo pudesse analisar essa decisão. Eu até entendi que nós poderíamos de alguma forma esperar a decisão do Supremo ou, além de esperar a decisão do Supremo, discutir o resultado, até o dia 26, da Procuradoria-Geral da República. Mas foi uma decisão da maioria da bancada no sentido de que nós já pudéssemos antecipar a representação e encaminhar agora, antes da decisão do Supremo e antes da decisão da Procuradoria-Geral da República.

 

Paulo Henrique Amorim – Então é uma medida de cautela, para se antecipar a uma decisão.

 

Heloísa Helena – Exatamente isso. Claro que nós reconhecemos que é uma representação que a Mesa do Senado poderá decidir pelo não encaminhamento ao Conselho de Ética. Porque já foi assim a decisão em relação ao caso do senador Gim Argelo, o que acabaria motivando a entrar no Supremo também, mas nós entendemos que a Procuradoria-Geral da República acabará decidindo até antecipadamente, como foi antecipado por eles, que fariam até o dia 26.

 

Paulo Henrique Amorim – De que a senhora suspeita no caso de Eduardo Azeredo?

 

Heloísa Helena – Toda a discussão que foi feita no Brasil durante a CPI...

 

Paulo Henrique Amorim – Dos Correios.

 

Heloísa Helena – Exatamente. Tratava da chamada promiscuidade entre as estruturas de financiamento de campanha e o “pagamento” desses financiamentos de campanha após a conquista de mandatos do Executivo. Claro que nós reconhecemos que, no caso específico do senador Azeredo, a triangulação acabou não se configurando porque o então hoje senador e, na época, candidato a governador não se elegeu. Então, essa triangulação não foi, digamos assim, viabilizada. Como a Procuradoria-Geral da República introduziu novamente esse procedimento investigatório, nós nos sentimos na obrigação de também, junto ao Conselho de Ética, apresentar o mesmo requerimento. Claro que nós sabemos que as quantidades são diferentes. Infelizmente o Brasil assistiu toda aquela conjuntura dos dólares na peça íntima do vestuário masculino, do pagamento de publicidade da campanha do Lula via paraíso fiscal, mensaleiros, sanguessugas e outras coisas mais. Claro que é triste para todos nós vermos muitos desses mensaleiros e sanguessugas que foram reeleitos, então, o caso acabou sendo reaberto novamente pela Procuradoria-Geral da República, obrigando o partido a solicitar o procedimento investigatório no Conselho de Ética.

 

Paulo Henrique Amorim – Se a Procuradoria-Geral da República fizer, como se disse que ia fazer, mas ainda não fez, uma denúncia ao Supremo contra o senador Eduardo Azeredo, a sua representação de hoje não fica obsoleta? Não fica fora de propósito?

 

Heloísa Helena – Não. O que levaria ela a essa caracterização não era necessariamente nem a decisão da Procuradoria. O que levaria é uma decisão que já existe da Mesa, Paulo Henrique. O que é quase que como certo que a Mesa acabará promovendo o não encaminhamento ao Conselho de Ética em função de ser “ilícito” os crimes ou indícios relacionados ao período anterior ao mandato. Como nós não concordamos com essa tese, porque nós entendemos que a quebra de decoro parlamentar não pode estar relacionada apenas aos ilícitos cometidos no exercício do mandato. É um debate que nós estamos esperando que o Supremo delibere sobre isso. Até porque, todos os outros casos que levaram à cassação ou à renúncia para não serem cassados, tanto de deputados como de senadores estavam relacionados a crimes contra a administração pública anterior ao mandato. Ou quando eram empresários e não eram senadores, ou quando eram governadores e não eram senadores e, mesmo assim, se garantiam o procedimento investigatório. Porque o que se analisa na quebra de decoro parlamentar, além do abuso das prerrogativas asseguradas no exercício do mandato e recebimento de vantagens indevidas é também conforme várias teses que foram construídas em vários relatórios que culminaram com cassação ou com renúncia de mandato, porque isso significa e simboliza também na imagem do parlamento perante à sociedade de uma forma em geral. Dali a motivação da quebra de decoro ser também relacionada àquilo que é anterior ao exercício do mandato como parlamentar. 



Escrito por FÓRUM PELA ÉTICA às 16h50
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